Âncoras de papel




Olhava-o cuidadosamente. Via refletido em seus olhos amendoados toda a empáfia daqueles que mentem pelo prazer de mentir.
Tantos anos, tantos dias desperdiçados. Esperando ver naquele rosto uma centelha de verdade.
Voltou-se para dentro de si mesma. Ali, naquele canto escuro e doloroso de seu coração, a desesperança  lhe acenava com um sorriso de escárnio.
O crucifixo pendurado na parede parecia apenas uma peça de metal.
Fitou a mancha de café na toalha da mesa, lembrou-se do seu coração. Manchado pela dor, pela renúncia, pela dolorosa espera de encontrar aquele que poderia trazer firmeza a seus passos, uma âncora de metal que a pudesse prender a terra, as coisas comezinhas das mulheres do dia a dia, que lavam, passam, cozinham, desfilam com seus rebentos, levando-os para a escola e limpam com muito zelo o catarro escorrendo de suas narinas. Que a impedisse de voar. Que pudesse ser ela mesma e não outra, tal como águia selvagem que abre as asas e lança-se no firmamento escuro, não temendo desafios.
Aquele pensamento encheu-a de horror.
E então ouviu a voz dele em falsete, lhe contando pela enésima vez uma mentira esfarrapada. Sentou-se no chão, colocando a cabeça entre as pernas e abraçando-se.
O choro veio, ininterrupto, doloroso, rasgado. Choro de mil encarnações, o grito de súplica pela liberdade. E sentiu a preta chegando perto dela, com as correntes arrastando, as costas lanhadas pela judieira do carrasco, as lágrimas escorrendo pelo rosto, a boca aberta num esgar de dor que ficara eternizado no rosto daquela mulher.
Sombras silenciosas a cercavam, Mulheres doloridas, assassinadas, machucadas, presas a suas dores. Mártires do Feminicídio.
Tristes e perdidas, suplicavam-lhe que erguesse a cabeça e enfrentasse o homem. Era a sua luta que libertava a elas também, a cada dia que erguia a cabeça e enfrentava os leões do cotidiano. Precisavam descansar.
E toda a dor assomou-se e envolveu seu coração. Olhou-o uma vez mais, gritou-lhe bem alto: “Eu não quero ouvir suas mentiras, me deixe em paz!’
Ele, perturbado com seu ímpeto, afastou-se, tal como cachorro com o rabo entre as pernas.
E ela, balançando o corpo para frente e para trás, tentava acalmar a dor que a rasgava de cima a baixo, golpeava seu útero, esmagava seu coração.
E lembrou-se daquela tarde onde abraçara o seu pai, ouvindo-o dizer que jamais faria aquilo de novo com a sua mãe, e docemente, o enchera de luz. A luz cálida do coração de uma criança, a confiança serena do amor, o perdão cintilando na lágrima furtiva que escorria pela face.
Sabia agora que aquelas palavras eram apenas engodos da crueldade de proprietário, vigiava e punia, e usava para obter o prazer e tinha necessidade de maltratar, pois eram ferros em brasa subjetivos marcados nas ancas das negras e mulatas, mulher brasileira. Posse.

E lembrou-se de sua criança interior, aquela meninazinha alegre que tão bem queria as pessoas.
...Eram seus filhos agora, as crianças que ela devia proteger.
E tanta coisa que dependia dela e não podia fraquejar. Ergueu-se e foi para dentro, segurando o choro. Como a mãe, a avó, a bisavó, como uma boa mulher negra. Submetera-se afinal.


A águia entrou silenciosa, encolheu as asas e foi esperar o momento certo para abrir as asas, um dia chegaria.
E novamente, num movimento de renúncia, resolveu perdoar, pois perdoar não é esquecer, mas optar por não sofrer a dor da afronta, da mentira, da comédia tragicômica.
Sentou-se para assistir televisão, mais calma agora. A dançarina movimentava sinuosamente o corpo sem música, com um sorriso falso para a câmera, em seus lábios pintados de vermelho.
Objeto da luxúria coletiva.  Mulher brasileira. Posse.
Quem era ela? Por que insistira tanto naquela rebeldia de querer ser diferente das outras? Naquela semana anterior, muitas mulheres sacrificadas.
Pessoas invisíveis que morreram ao injetar polimetilmetacrilato em seus corpos para atender anseios da Indústria da beleza, outras vítimas de violência doméstica e que serão apenas mais um número nas estatísticas.
Constatou, com horror que as leis que protegem as mulheres são tão frágeis como a segurança dele. Âncoras de papel.
E lá estava ela, reduzida a sua existência mediana, presa a sua âncora de papel.
E sentiu pena de si, dele, do mundo, da bailarina de vestido curto, que com um sorriso artificial movimentava o corpo num frenesi, e das mulheres que já foram sacrificadas num culto ao Prazer do homem. Objeto de cama, de mesa, de maca, de seringa com PMMA.



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